Memorial da Rua São Joaquim

Este blog tem como objetivo resgatar a memória dos moradores e ex-moradores da Rua São Joaquim, do bairro Glória da cidade de Porto Alegre - RS.

domingo, 11 de janeiro de 2009

OS TRABALHADORES DA RUA SÃO JOAQUIM
 Este texto ficou classificado em terceiro lugar na categoria "Lembranças e Vivências" do Concurso Histórias de Trabalho de 1997, organizado pela Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Foi publicado nas páginas 97-105. In: HISTÓRIAS de Trabalho 1996/1997. Porto Alegre, 1998. 269 p. ilust. 21 cm.


Salvatore Santagada


A intenção do presente texto é trazer à lume as características de algumas ocupações desenvolvidas entre o final dos anos 50 e início da década de 60 na rua São Joaquim. A rua São Joaquim tem início na confluência das ruas Nunes e Coronel Neves e termina na rua Luiza Rocco (até 1960 com o nome de rua Minerva), no entrecruzamento dos bairros Glória, Medianeira e Teresópolis, embora pertença ao primeiro, e na zona sudeste de Porto Alegre.
As caracterizações das ocupações aqui relatadas são anotações livres que o Autor fará com base em suas reminiscências do objeto de descrição, embora use outras fontes de consulta.
Uma característica básica da maioria das ocupações aqui relatadas é a ausência de vínculo trabalhista, bem como a prática a céu aberto.
A rua, na época, não tinha calçamento; possuía poucas casas, em sua maioria de madeira, onde habitavam trabalhadores. O esgoto cloacal era canalizado até o riacho Cascata, que corria paralelo à rua. O esgoto também era recolhido nas fossas sépticas; em um caso havia a coleta direta do material. As crianças tomavam conta da rua para suas brincadeiras: futebol, corda, sapata, rouxinol e outras; o movimento de veículos automotores e de tração animal era mínimo, permitindo a fácil administração dos jogos infantis. Ao entardecer, nos dias quentes de verão, os moradores iam para a frente de suas casas, sentando em cadeiras de palha sob a copa dos cinamomos e se dedicando ao convívio com os filhos e vizinhos para prosear e contar causos, piadas, namorar. A rua contava ainda com dois campinhos de futebol de várzea, dois armazéns de secos e molhados, um açougue, uma marcenaria, um artesão de violinos, três casas de religião (uma afro-brasileira e duas espíritas) e um clube esportivo para prática de bocha. Neste espaço geográfico, que compreende a rua São Joaquim propriamente dita e suas adjacências, é que se situa o cenário das atividades das ocupações que serão descritas a seguir.
O padeiro
Este vinha duas vezes ao dia em uma carroça de duas rodas, com dois assentos e boléia coberta, com carroceria fechada; os pães (francês, italiano, sovado e doce) ficavam em tulhas, os doces (mata-fome, mil-folhas, “nariz-entupido” e outros) em bandejas de madeira dentro de compartimentos de vidro, que continham também os salgados (empadas, pastéis). Estas mercadorias eram entregues nos armazéns, como também à domicílio. Aos olhares infantis, a carroça assemelhava-se a uma diligência de faroeste americano.
O leiteiro
Na primeira hora do dia, o caminhão do antigo Departamento Estadual de Abastecimento de Leite (DEAL) encostava na frente do posto de venda e deixava na rua os engradados de ferro com dez garrafas de vidro de um litro. A sigla da empresa estava grafada em alto relevo na garrafa e na tampa de alumínio, onde também constava a data do engarrafamento.
O entregador de carne (atacadista)
Os caminhões de carne entregavam sua mercadoria ainda quente; as peças de dianteiro e do traseiro do boi eram transportados nos ombros pelos empregados do marchante até o açougue. Além da carne, outros produtos que abasteciam os armazéns eram transportados pelo entregador.
O entregador de carne a domicílio
O açougueiro, depois de cortar a carne em peças menores, enviava parte destes “pesos” para alguns clientes à domicílio. Um ajudante, geralmente familiar e menor de idade, entregava as encomendas na própria rua onde estava localizado o estabelecimento, bem como no seu entorno, a pé ou de bicicleta cargueira.
O afiador de facas
A pé, numa carroça ou de bicicleta, o amolador de facas, facões, tesouras ou canivetes percorria o bairro fazendo-se anunciar pelo soprar de seu apito de som característico. Ele pedalava ou rodava o esmeril para poder afiar as diferentes lâminas que a freguesia queria receber em bom estado de uso.
O peixeiro
O vendedor ambulante de peixe ( de rio ou de mar) vinha de casa em casa oferecendo seu produto: “Olha o peixe, peixe fresco!” Carregava sua mercadoria em um balaio feito de vime e o entregava em recipiente próprio do comprador.
O geleiro
O entregador de gelo era muito importante numa época em que não havia refrigeradores elétricos nacionais, somente importados e acessíveis a uma minoria da população. A manutenção dos alimentos perecíveis e bebidas geladas era feita em geladeira fabricada de madeira de árvore nativa (angico e outras) que mais parecia um cofre, com duas partes: a parte superior um compartimento revestido de zinco onde era colocada meia barra de gelo, que durava vinte e quatro horas; na parte inferior eram armazenados os alimentos. As barras de gelo eram entregues em caminhões, envolvidas em serragem e cobertas por uma lona.
O feirante
A “Feira Livre”, localizada na rua Nunes (já funcionou nas ruas Anchieta e Campos Elíseos), vizinha à rua São Joaquim, possui hoje um conjunto de quatro barracas que vendem frutas e verduras, e desde sua implantação funciona aos sábados. No início dos anos 60 possuía umas cem barracas ocupando toda a extensão da rua e vendia de tudo (roupas, carne, utensílios domésticos e ferramentas); era um centro de compras importante e local de encontro da comunidade; com advento das redes de supermercados a feira foi definhando, e em meados dos anos 70 contava com menos da metade das barracas.
O entregador de compras da feira
No auge da feira livre, um grupo de meninos com seus carrinhos de mão levavam as compras em casa por uma pequena remuneração. A dona de casa, após “fazer a feira”, era ajudada por estes meninos para carregar seu rancho da semana ou do mês.
O comprador de ferro-velho
Ainda não existia a coleta seletiva de lixo, e a preocupação com o meio ambiente era remota; entretanto a criançada, para ganhar algum trocado, recolhia vidro, pedaços de ferro, chumbo, ossos e jornais velhos para vender. O homem do ferro-velho gritava o seu pregão: “Garrafa vazia, ferro-velho. Compro osso, vidro quebrado, ferro-velho”. A balança do comprador de ferro-velho era uma balança de mola bastante rudimentar (usada só para compra); a variação de comprimento da mola indicava o peso dos trastes à venda.
O verdureiro
Uma carroça, de duas rodas, puxada por cavalo ou burro, com o verdureiro postado geralmente a pé do lado da carroça apregoando sua mercadoria: “Verdulerooo! Laranja madura! Melancia calada”. As pessoas iam até a rua com cestos, bacias ou sacolas para comprar suas frutas e verduras. A melancia calada era uma garantia de boa fruta para o comprador: o verdureiro fazia uma pequeno corte triangular na fruta que era oferecida para o comprador degustar ou olhar a qualidade, caso não gostasse uma outra fruta era “calada”.
O entregador de lenha
O fogão a lenha era um bem de uso generalizado, na área urbana poucas pessoas tinham acesso a lenha sem ser por compra numa serraria. Próximo a rua São Joaquim tinha uma serraria que entregava as “talhas de lenha” (a talha eqüivale a cem achas de lenha). O seu empregado que fazia a entrega com uma carroça tinha um físico de atleta e muitas vezes estava com o dorso a descoberto, e guiava a carroça em pé. Tinha como apelido Bem-Hur, em lembrança ao filme homônimo de 1959.
O cubeiro
A precariedade da rede de esgoto deu lugar ao aparecimento de uma ocupação insalubre, o cubeiro, pessoa que tinha como tarefa recolher os dejetos humanos acondicionados no cubo. O cubo era “um barrilete cilíndrico de madeira, de cerca de 15 ou 20 litros”, colocado sob as latrinas. Embora a ocupação de cubeiro ter sido desativada a partir dos anos 40, segundo historiadores, o Autor presenciou um trabalho com as mesmas caraterística no período aqui retratado. Ele percorria a rua com um carroção; o cubo cheio era trocado por um vazio, e por onde passava o cheiro de fezes impregnava o ambiente. Apenas uma residência da rua mantinha este sistema.
O pipoqueiro
Vinha a pé com sua carrocinha, que parecia uma pequena locomotiva. O local onde preparava a pipoca era envidraçado e tinha uma chaminé para a saída da fumaça. O fogareiro a querosene servia para preparar as pipocas.
O vendedor de algodão doce
O vendedor de algodão doce tinha uma carrocinha parecida com a do pipoqueiro, apenas que esta tinha um mecanismo giratório no centro de um grande prato com um sulco ao redor do mesmo. No sulco era colocada uma certa quantidade de açúcar. Ao girar o mecanismo, pela força centrífuga desprendia-se uma quantidade do doce que ia sendo pego por uma pá pequena e enrolado num espetinho de madeira, parecendo uma bola de algodão colorido.
O bilheteiro
O bilheteiro andava pela cidade apregoando a esperança: “Olha a sorte grande, corre hoje!”. Vendia os bilhetes numerados das loterias estadual e federal. No pregão usava, por exemplo, o dia do mês e o ano de nascimento dos possíveis compradores para chamar atenção para os números dos bilhetes.
O guarda-noturno
O guarda-noturno na época já era uma instituição. Conhecido da comunidade, preservava seu patrimônio percorrendo as ruas e soprando de tempos em tempos seu apito, para que as pessoas pudessem ter certeza que estava realmente trabalhando. Usava farda azul e, em alguns casos, patrulhava de bicicleta.
A carrocinha de cachorro
A Prefeitura Municipal, com objetivo de combater a raiva (o RS há mais de uma década não tem registro de nenhum caso) transmitida por cães, fazia circular “a carrocinha” pelas ruas da cidade, para capturar cachorros vadios. A maioria dos cães viviam soltos pelas ruas, raramente atacavam porque tanto o cachorro como as crianças conheciam-se reciprocamente. Quando aparecia uma carrocinha a rua transformava-se num campo de batalha , de um lado os caçadores de cães e de outro os moradores que queriam preservar seu animal corriam para dentro de suas casas com seus cães de estimação. A carrocinha tinha na sua parte traseira um compartimento tipo jaula, onde eram trancafiados os cães vadios e sem coleira de identificação. Os cães eram caçados utilizando-se de uma espécie de vara comprida com um laço na extremidade. O cachorro laçado era jogado na jaula, e recomeçava o latido dos cães companheiros do infortúnio. A criança que tinha seu cão apreendido chorava compulsivamente, porque os adultos diziam que os cachorros eram sacrificados e aproveitados para fazer sabão. Uma parte da estória retratava a verdade, pois após um determinado tempo os cães não reclamados no canil da Faculdade de Medicina da UFRGS eram utilizados como cobaias no curso. O dono podia pagar uma multa e assim reaver seu cão.
O mata-mosquito
O mata-mosquito era um funcionário da Prefeitura que tinha como tarefa a verificação da limpeza das bocas de lobo (bueiros) coletores da água da chuva. Para abrir os bueiros utilizava um ferro comprido que numa das extremidades tinha uma ponta em forma de gancho. O gancho era introduzido na fenda da tampa do bueiro e a puxava para fora; com um tipo de pá especial no formato de tesoura comprida com uma mini-caçamba na extremidade era retirado o entulho, e após a limpeza era lançado um líquido à base de querosene para higienizar o local e livrar os moradores dos mosquitos durante o verão. O preparado vinha acondicionado numa espécie de um latão com uma ponta alongada semelhante a uma chaleira, bem como podia burifar com uma bomba manual de “sulfatar” levada nas costas.
O fiscal da higiene
O fiscal da Prefeitura percorria o bairro, indo de residência em residência, bem como em terrenos baldios para verificar as condições higiênico-sanitárias dos locais vistoriados. O período aqui retratado era de transição dos bairros residenciais que ainda mantinham algumas caraterísticas rurais. O Código de Posturas da cidade procurava implantar um padrão sanitário para as populações urbanas. Conviviam com a população animais de tração como o burro e o cavalo; estábulos e chiqueiros para os porcos, galinheiros e outros tipos de criatórios eram comuns entre as populações dos bairros da periferia da cidade. As condições higiênicas eram fiscalizadas e as medidas padrões do Código eram cobradas dos moradores, as latrinas e banheiros das residências também eram foco de preocupação dos fiscais. Após a fiscalização o morador recebia um alvará que comprovava o bom estado higiênico do local; este alvará tinha que ser afixado nas residências para comprovar as boas condições sanitárias e a vistoria realizada pelo funcionário da prefeitura; o alvará tinha espaço para anotar doze vistorias mensais.

FONTES DE CONSULTA

BARCELLOS, Claudete (1996). "A Capital nos tempos do Intendente." Zero Hora, Porto Alegre, p.4 -5, 29 ago.
CAMPOS, Paulo Mendes (1981). "As Horas Antigas" – In: Crônicas Escolhidas, São Paulo, Ática, p.80 -1
CHASSOT, Attico Inácio (1995). "Cubeiro - um profissional que afortunadamente desapareceu." In: Histórias de Trabalho. Porto Alegre, Unidade Editorial, 170p.
CÔRTES, Paixão (1982). "Pregões de Porto Alegre." In: LP Paixão Côrtes - Cantando e Bailando. Rio de Janeiro, Polygram.
EICHENBERG, Fernando (1995). "O afiador de facas.", Zero Hora, Porto Alegre, Revista ZH, p.2, 29 jan.
FRANCO, Sérgio da Costa (1992). Porto Alegre: guia histórico. 2.ed. ver. ampl., Porto Alegre, Ed. da Universidade/UFRGS, 441p.
GARGANO, Pietro (1995). I mestieri di Napoli. Roma, Newton Compton,. 66p.
PESAVENTO, Sandra Jatahy, coord. (1992). O espetáculo da rua. Porto Alegre, UFRGS/PMPA, 95p.
SAMRIG (s.d.). Relatório de Diretoria 1979/80. Porto Alegre.
SCHMIT, Maristela (1988). Bairro. Já, Porto Alegre, Ano III, n.16, p.15, jan.
TELLES, Leandro (1979). História da “Mui Leal e Valorosa Cidade" de Porto Alegre. Porto Alegre, SESI

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