Minha Rua
Minha Rua (À memória de meus pais)
Oracy Dornelles
Pobre rua esburacada
De Santiago, eu te saúdo!
Tu nunca disseste nada
Como si soubesses tudo.
Nunca foste compreendida
Porque és humilde demais.
Mas cada pedra elucida
Teus sentimentos reais.
Há saudades erradias
Dentre o sulco das carretas,
E vivas filosofias
Sufocadas nas sarjetas.
Não há ninguém que te queira
E seja como eu tão bom,
Do que a própria polvadeira
De teu vestido marrom;
Porque ela forma, no vento,
Desenhando estranhos termos,
Rascunhos de pensamento
Para nós nos entendermos.
(Alegorias encerra
Que, talvez, entenda eu só)
– Bendita faixa de terra
Ornamentada de pó
– Santiago, rosal dos pampas,
Teatro de amor e peleias,
A altaneria que estampas
Fecunda sangue de veias.
Mergulhando noite adentro
Santiago desvenda e aprova
A tristeza aqui do “Centro”
E os sonhos da “Vila Nova”.
Minha rua, tu me abrasas
Singela assim, ao rigor,
Com dois colares de casas
Toda bordada de dor.
Vejo menos do que viste,
Embora tarde conclua,
Pois aprendi a ser triste
No teu silêncio de rua.
Agonia das Trevas, primeiro livro do autor, lançado em 1954.
Oracy Dornelles [Nasceu em Santiago(RS) no dia 26 de junho de 1930], poeta, pintor, caricaturista, escultor, agora o número 01 do projeto Santiago do Boqueirão seus poetas, quem são?, do Curso de Letras da URI. O homem do jogo articulado da sintaxe, dos símbolos inovadores, das esculturas gigantes, das pinturas micro, dos livros, discos e dos filmes raros, da conversa com acidez crítica, espiritualista que cultua a natureza: dos insetos, cães, às galáxias. Um exótico amigo que encontra a alegria de viver quando executa a criatividade.
Fonte: http://www.terradospoetas.com.br/autores.php

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