O Bom Lugar

O Bom Lugar
“Provas de que existe algures, de fato, o Bom Lugar
Tão convincente quanto o que as crianças acham em pedras e buracos?”
Uma viagem – Parte I, Para onde? W. H. Auden
Olhando-a de frente a casa pintada de bordô era como tantas outras casas dos anos 60 no bairro Glória, em Porto Alegre: simples, de madeira macho-fêmea. Assentada no centro do terreno, à sua direita o corredor de chão batido tinha um caminho central de lajes de arenito, algumas delas já gastas pelo tempo, onde um grupo de crianças se reunia para brincar pela manhã, ler gibis, e inclusive “fazer a guerra”, resguardados no verão pela sombra da própria casa. Cada menino recebia o seu material bélico em condições iguais de potencial de fogo ao do inimigo, e seu exército ao entrar em ação só dependia das estratégias de seu comandante em chefe.
Os soldados, com farda verde-oliva, já vinham com todos os apetrechos, fuzil ou metralhadora, mochila e cantil. Os carros leves (jipes, carros pipas) e pesados (caminhões de transporte, tanques) eram úteis para garantir a retaguarda da tropa de infantaria que era de longe sempre a mais numerosa, e estar a postos para entrar em ação.
O preparo do campo de batalha evocava lembranças de táticas da I Guerra Mundial: cavavam-se trincheiras, onde os soldados ficariam frente a frente com o inimigo. Isso tudo destoava dos homens e de seus uniformes, do armamento utilizado, que tudo indicava serem fiéis representantes dos exércitos do pós Segunda Grande Guerra.
Após a faina de preparar o terreno e posicionar as tropas, os comandantes acertavam o horário de início das hostilidades. O “fogo inimigo” era de verdade, pois as balas, granadas de mão, bombas dos mais diversos calibres, eram escolhidas no mesmo pátio do corredor: pequenas pedrinhas garimpadas no solo, cascalhos, torrão de terra, etc. Essa era a forma inanimada do potencial de destruição. Agora somente a sorte e a maestria de cada competidor no uso deste arsenal iriam depender do andamento do conflito bélico.
Os soldados a postos, as forças em luta agitavam-se, no campo de batalha pairava uma certa lentidão própria da organização e das táticas da guerra de posição, mas os comandantes realizavam as estratégias mais modernas da guerra de movimento, gesticulavam freneticamente, gritavam, lançavam bombas, tinham um campo de visão de 360 graus do terreno, inclusive realizavam ataques como se fossem verdadeiros camicases. Em poucos minutos a destruição e o horror imperavam no terreno, soldados próximos as trincheiras estavam caídos e fora de combate, a contabilidade dos feitos era um misto de matemática aplicada e sensibilidade estratégica para verificar se a destruição de um carro de mantimentos deveria valer o mesmo que um tanque posto fora de circulação. A guerra ia tomando seu rumo até o último soldado do lado inimigo ter tombado.
Estas batalhas matutinas eram reiniciadas mais de uma vez, entretanto tinham um horário predeterminado para serem concluídas: “the game is over” no horário do almoço e o sol a pino já iluminava parte do campo das contendas nunca antes imaginadas pelos Senhores da Guerra.
As mamães chamavam seus guerreiros para o almoço familiar e para depois enviá-los arrumados e com asseio para a escola. Eles saiam do front de luta sujos, mãos calejadas, joelhos lanhados. Era preciso ajudar o dono da casa a recolher os soldados inertes, os equipamentos destruídos, mas por um toque de magia tanto os homens em guerra como suas armas de destruição estavam íntegros e prontos para uma nova batalha.
A guerra acabou! Não temos soldados mortos para chorar e nem civis atingidos por “fogo amigo”, podemos afirmar que aqui estamos construindo o bom lugar para sonhar e viver em paz.
(Salvatore Santagada, 18.04.2003. Sob o impacto da “guerra do Iraque [que] teve início em 20 março de 2003, quando os EUA -- com o apoio do Reino Unido, Espanha, Itália, Polônia e Austrália-- invadiram o país. A justificativa dada foi a suposta existência de armas de destruição em massa em poder do então ditador iraquiano Saddam Hussein, que não foram encontradas.” )
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u383788.shtml

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