Memorial da Rua São Joaquim

Este blog tem como objetivo resgatar a memória dos moradores e ex-moradores da Rua São Joaquim, do bairro Glória da cidade de Porto Alegre - RS.

sábado, 1 de novembro de 2008

Eu era feliz e não sabia


“Eu era feliz e não sabia”[1]

No início dos anos sessenta eu morava na Rua São Joaquim, no Bairro Glória. Meu pai, Luigi, era o dono do Açougue Internacional, e ao lado de seu comércio havia o Armazém Flôr da Zona, de propriedade do Sr. Sílvio [Moreira da Graça]. Nos fundos do terreno do armazém havia a casa de alvenaria da família do Sr. Sílvio, espaçosa, onde residia com a esposa e filhos, e várias outras para aluguel, pequenas casas de madeira de macho e fêmea. Do quintal de nossa casa, pela manhã bem cedo, já se podiam ouvir os vários aparelhos de rádio sintonizados nas radionovelas, coqueluche da época, espalhando pelos ares as dores e amores das histórias radiofonizadas, de tal forma que as pessoas se locomoviam nas casas, em seus afazeres, sem perder nenhum dos “ais” dramatizados. Nos intervalos, os reclames chamavam a atenção, e para mim sempre ficou na memória o do sabonete Palmolive da Gessy-Lever, entre outros.

Em minha casa ouvíamos rádio regularmente, mas meu pai, no entanto, não tinha o hábito de trabalhar ouvindo rádio, não havia rádio no Açougue Internacional. Já o Sr. Sílvio, era diferente, realizava suas tarefas acompanhadas pelas ondas da Rádio Guaíba. Eu esperava com ansiedade o final da tarde, quando era veiculado o programa infantil intitulado “Histórias do Mestre Estrela” [Teatrinho Cacique], apresentado pelo radialista Antônio Gabriel[2], com o patrocínio da fábrica de Brinquedos Estrela. O rádio ficava localizado ao lado do balcão do caixa, com sua gaveta para notas e moedas. Neste ambiente, no Armazém Flôr da Zona, se juntava uma pequena turma de meninos e meninas para ouvir as estórias, com direito a sonoplastia e a uma voz cativante que dava colorido e vivacidade a trama.

A cortina musical que identificava o programa [Teatrinho Cacique], e marcou para sempre minha alma de criança era a música "A Velha a Fiar"[3], de tradição folclórica, com arranjo do Trio Irakitan.[4]

As histórias do Mestre Estrela [do Teatrinho Cacique], nos dias de chuva, tinham um sabor especial que deixava nossas mentes mais livres e receptivas a entrar no mundo da fantasia e receber pelas ondas do rádio as mais convincentes ilusões; o assoalho do armazém neste dia era recoberto de serragem de vários tipos de madeira. As estórias, a chuva, o cheiro de madeira, o ambiente aconchegante deixava os corações das crianças abertos e em pleno êxtase. Neste momento o “Era uma vez...”, os castelos, as fadas, os duendes, o Rei, a Princesa, o Príncipe, o gato, o sapo, enfim, todos os personagens, irmanavam-se com a locução e a sonoplastia, levando todas as crianças para um mundo de maravilhamento e onde tudo era possível, onde todas as boas ações eram premiadas e onde os maus eram, invariavelmente, punidos.

A velha seguia a sua rotina e continuava a fiar, e eu e as demais crianças do lugar éramos felizes e, talvez, nem tivéssemos dimensão da riqueza daqueles momentos. [Salvatore Santagada, sociólogo, 55 anos, Porto Alegre, 16/04/2007].

Documento sonoro

Rádio Guaíba

019 SALVATORE SANTAGADA www.radioguaiba.com.br/Historias_50anos.asp - 26k



[1] Verso da música “Meus Tempos de Criança” de Ataulfo Alves, 1956.

[2] Depoimento de Antônio Gabriel: Entrevista gravada no estúdio de rádio da Famecos em 11 de maio de 2004. Disponível em: http://www.pucrs.br/famecos/vozesrad/20041/agabriel/agintegra.html. Acesso em: 03 de abril de 2007.

Miltom Ferreti Jung Entrevista gravada no estúdio da Rádio Guaíba em Porto Alegre, no dia 04 de setembro de 2002. Disponível em:http://www.pucrs.br/famecos/vozesrad/milton/miltonjint.html Acesso em: 03 de abril de 2007.

[3] "Estava a velha em seu lugar /Veio a mosca lhe fazer mal /A mosca na velha e a velha a fiar // (...) //Estava o boi em seu lugar /Veio o homem lhe fazer mal /O homem no boi /O boi na água /A água no fogo /O fogo no pau /O pau no cachorro /O cachorro no gato /O gato no rato /O rato na aranha /A aranha na mosca /A mosca na velha e a velha a fiar..."

[4] Trio Irakitan "Para Crianças de 6 a 60 Anos", LP - MOEB 3001 - ODEON

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